Nota sobre as notas de Larrosa com atravessamentos
Primeiro, um
pedido: pare para ler as palavras que vierem a seguir. É um pedido que te
proporciona algo não apenas enquanto leitor, mas enquanto pessoa viva que às
vezes perde a sensação de pulsação das veias. Depois: esse texto é semelhante a um ambiente atravessado por iluminação retangular e espalhada, numa espécie de fragmentos de luz. É preciso olhar o todo para construir o que eu quero dizer e o que você quer interpretar. É preciso conceituar
alguns pontos – emprestados, compartilhados, atravessados – do texto de José
Larrosa, o Notas sobre a experiência e o
saber da experiência - traduzido por
João Geraldi, e do meu próprio conceito de carpe diem, pautado na experiência, leituras diversas de Pessoa e valores adaptados do arcadismo.
O texto em
questão trabalha diversas camadas que não dou conta de me ater e por isso
escolho a experiência, o sujeito da experiência e o saber da experiência como um dos eixos de travessia. A experiência é um evento cheio de significado que tem
como principal característica acontecer conosco. Sem essa característica, o que
acontece sem acontecer conosco não é experiência, portanto, não constrói
significações. Esse marcador nos leva para lugares interessantes: cada evento
possui características muito especificas, nuances que provavelmente nunca mais
se alinharão numa mesma rota. É o lugar que Heráclito há tanto falou e que
parece se perder de sentido, exige certa concentração pra que a gente consiga
ir além dos valores capitalistas que estão mascarados de “aproveite a vida”.
Nós. Não entramos. Duas vezes. No mesmo rio.
Temos então a
sensação de que a experiência é uma entidade que está em constante movimento. Uma
entidade que corre, como um rio. E como um rio, nos atravessa. Preenche-nos. Divide-nos.
Impõe-se. Não escapa. Seu constante movimento e atravessamento é uma realidade
da qual não temos escolha. Está dada. Temos controle – talvez - só sobre nossas
decisões. Talvez a experiência seja uma das entidades que não faz parte do
grupo de Pessoa “os deuses vendem quando dão” e justamente por ser marcada por
esse desagrupamento, não tem uma moeda de troca pra dar como prece e fazer com
que a entidade seja. O evento é.
Ainda nas
notas, Larrosa divide e conceitua diversos tipos de sujeitos e escolhe, para o
sujeito da experiência, a definição de que é um sujeito disposto e disponível à
passividade: "em qualquer caso, seja
como território de passagem, seja como lugar de chegada ou como espaço do
acontecer, o sujeito da experiência se define não por sua atividade, mas por
sua passividade, por sua receptividade, por sua disponibilidade, por sua
abertura.” E continua, fazendo alusão à um processo de apaixonamento, “um
sofrimento ou um padecimento. No padecer não se é ativo, porém, tampouco se é
simplesmente passivo. O sujeito passional não é agente, mas paciente, mas há na
paixão um assumir os padecimentos, como um viver, ou experimentar, ou suportar,
ou aceitar, ou assumir o padecer que não tem nada que ver com a mera
passividade, como se o sujeito passional fizesse algo ao assumir sua paixão.” É
aqui talvez que a gente flagre a diferença entre esse carpe diem que nos enfiam
goela abaixo e o carpe diem que parte de uma disposição a sofrer a vida.
A sugestão é a seguinte: “aproveite o dia como se não
houvesse amanhã", "Sorria. Escolha o bem. Usufrua. Se entregue", "Construa
oportunidades", "Se preocupe com o hoje", "Não pense em crise, trabalhe.” Essas são
as frases motivacionais capitalistas para nos encorajar em momentos que talvez
não devamos ter coragem. Frases em que estamos enquanto sujeitos ativos, mas nem sempre dispostos.
“Meu amor o que você
faria? /Se
só te restasse esse dia /Se O mundo fosse
acabar /Me diz o que você faria? /Andava pelado na chuva /Corria no meio da rua /Entrava de roupa no mar /Trepava
sem camisinha” Lenine explora. E nós também quando estamos diante
de uma Black Friday e precisamos do impulso necessário para gastar nossas
economias (?) naquela máquina de waflles. A questão é: qual a probabilidade de não
haver amanhã? A vida se encerrará em um único dia e sim, nós não sabemos qual.
Mas, por uma lógica amparada na matemática, se você viveu até aqui, você tem
dias suficientes para diminuir a porcentagem da probabilidade de morrer amanhã.
Trepe com camisinha.
O real
significado dado por mim mesma é o seguinte: esteja inteiro/a. Estar
disponível, nesse processo de passividade, é conhecer quem se é e saber o que
se sente. Tomar posse de si. Ter consciência de suas próprias emoções, perigos
e vontades. Dar nome para os sentimentos presentes. Dar sentido ao que se
sente. O próprio sentido. Diferenciar o carpe diem comercial. Longe de mim
vender aqui qualquer coisa parecida com os oito segredos de uma vida saudável,
que muitas vezes mais parece um conjunto de regras pautado em perdão cristão e
alegria santa, uma espécie de “virgens prudentes”. Estou aqui em busca de
propagar que a gente não deve se privar de parar para viver as coisas. Não por causa de um possível amanhã ausente,
mas pelo simples fato de que precisamos paradas.
Larroso fala de várias
paradas, lentidões e suspensões: “parar para pensar, parar para olhar, parar
para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar;
parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a
opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da
ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar
sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a
arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço.” Eu acrescento
minhas próprias paradas: parar para sentir raiva e para legitimar a raiva;
parar para sentar, sentir a bunda no chão, espantar a porra do mosquito e matar
formiga; parar para transar e sentir o sexo em todo o corpo, o movimento, a
tensão e o auge; parar para sentir cheiro, sabor e temperatura de um chá verde;
parar para entender como esse cara tá na presidência da República e as pessoas
validam o mestrado bíblico da ministra da educação - isso me deixa paralisada; parar para peitar a fé,
arrumar o cabelo e tomar um banho de Afrodite. São várias as paradas. Não
porque o fim do mundo é amanhã, mas porque você tem a escolha de ser inteiro. Você
pode ser inconveniente e deixar de querer agradar outra pessoa que não seja
você. E ter algumas inimizades por que inconveniência hoje é conhecido como não admitir
que macho escroto e gente tóxica permaneça na sua vida. Existe a possibilidade de você ter uma vida real, com uma ansiedade real, com escolhas reais e uns
problemas reais. E estar ali. Consciente. Racionalizando emoções e sentindo-as.
E sentindo-as lentamente. Demorando uma hora de banho. Usando meia hora para
fitagem.
O saber da experiência, segundo Larrosa é “o que se adquire
no modo como alguém vai respondendo ao que vai lhe acontecendo ao longo da vida
e no modo como vamos dando sentido ao acontecer do que nos acontece. No saber
da experiência não se trata da verdade do que são as coisas, mas do sentido ou
do sem-sentido do que nos acontece. E esse saber da experiência tem algumas
características essenciais que o opõem, ponto por ponto, ao que entendemos como
conhecimento.” Singelo e petulante acréscimo é: o saber da experiência é algo construído
que pode ser libertador e saudável, feito para substituir os padrões de
relação, comportamento, corpo, entrega e do próprio sentir. Feito pra substituir amigos descolados que
dizem o que você pode ou não sentir. Feito para substituir o ex-embuste que,
mesmo depois de trair, não vê motivos para não ter contato. O saber da experiência
é algo feito para substituir aquele discurso de “crie a oportunidade” por “entenda
o contexto do que você está vivendo”.
O saber de si (porque vira saber de nós quando a gente tem compreensão
de que nossas experiências são parte de nós) é o processo que colabora para a
compreensão do que nos atravessa, de como atravessamentos nos tocam e como nos
colocamos diante deles. O saber é o
convite para assumir e defender quem somos, porque defesa nasce de um processo
produzido pela inteireza de estar presente. Dentro de si - mesmo fragmentado. E, depois de tanto
sentido construído, não há como não escolher pela separação do capitalismo da
máxima latina que ele se apoiou e se apoia hoje. Fugere urbem.
Notas sobre a experiência e o saber da experiência é um texto incrível e está disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n19/n19a02.pdf
Notas sobre a experiência e o saber da experiência é um texto incrível e está disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n19/n19a02.pdf
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